quinta-feira, 2 de outubro de 2008

blog do lucas

Poética do Pós-Modernismo - Linda Hutcheon

"É esse tipo de contradição que caracteriza a arte pós-moderna, que atua no sentido de subverter os discursos dominantes, mas depende desses mesmos discursos para sua própria existência física: aquilo que "já foi dito". Contudo, julgo errado considerar o pós-modernismo como sendo, de alguma forma, definido por uma estrutura de 'ou/ou'. Conforme veremos com mais detalhe no capítulo 12, não é uma questão de ele ser ou nostalgicamente conservador ou radicalmente anti-humanista em sua política (Foster 1985, 121). Na verdade ele é ao mesmo tempo, ambos e nenhum. Sem dúvida, caracteriza-se por um retorno à história, e realmente problematiza toda a noção de conhecimento histórico. Mas o restabelecimento da memória não é acrítico nem reacionário, e a problematização das certezas humanistas não implica sua negação ou sua morte. Menos do que desgastar nosso 'senso de história' e referência (Foster 1985, 132), o pós-modernismo desgasta nosso velho e firme senso sobre o que significavam a história e a referência. Ele nos pede que repensemos e critiquemos as noções que temos com relação às duas.Teóricos e artistas reconheceram que muitas vezes o paradoxo pode ter o cheiro de concessão. Vejam a opinião de Douglas Davis, artista de vídeo:Se quero dirigir minha arte ao mundo, devo fazê-lo através do sistema, como todos devem fazer. Se isso tem um aspecto suspeito no sentido de parecer liberalismo e concessão, então que assim seja: com exceção da espada, o liberalismo e a concessão sempre foram a única forma de atuação de qualquer revolucionário autêntico. (1997, 22)Sem dúvida, A Mulher do Tenente Francês confirmaria essa visão da contradição como concessão, mas não de concessão no sentido de evitar o questionamento ou de criar uma nova totalidade interpretativa unificadora, que servisse como substituto. O pós-modernismo explora, mas também ataca, elementos básicos de nossa tradição humanista, tais como o sujeito coerente e o refertente histórico acessível, e é perfeitamente possível que seja isso que o torna tão insuportável aos olhos de Eagleton e Jameson. Os conceitos de originalidade e 'autenticidade' artísticas, e de qualquer entidade histórica estável (tal como 'o operário'), que são contestados, parecem ser essenciais à narrativa-mestra marxista desses dois críticos. Provavelmente, a pós-moderna indeterminação de distinções sólidas é, por definição, um anátema para o raciocínio dialético marxista, assim como também o é para qualquer posição habermasiana de racionalidade iluminista. Essas duas influentes posturas de oposição ao pós-modernismo baseiam-se no tipo de metanarrativas totalizantes (Lyotard 1984a) que o pós-modernismo desafia - isto é, ao mesmo tempo usa e abusa delas.Juntamente com Nannie Doyle e outros, eu afirmaria que o aspecto positivo, e não negativo, do pós-modernismo é o fato de ele não tentar ocultar seu relacionamento com a sociedade de consumo, e sim explorá-lo com novos objetivos críticos e politizados, reconhecendo declaradamente a 'indissolúvel relação entre a produção cultural e suas associações políticas e sociais' (Doyle 1985, 169).

"Poética do Pós-Modernismo - História - Teoria - Ficção - Linda Hutcheon, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1991, pp. 70-71._________________________________Davis, Douglas (1977) Artculture: Essays on the Post-Modern. Nova Iorque, Harper & Row.Doyle, Nannie (1985) "Desiring Dispersal: Politics and the Postmodern". Subjects Objects 3: 166-79.Foster, Hal (org.) (1985) Recodings: Art, Spectacle, Cultural Politics. Port Townsend, Wash., Bay Press.Lyotard, Jean François (1984a) The Postmodern Condition: A Report on Knowledge, trad. Geoff Bennington e Brian Massumi. Minneapolis, University of Minnesota Press.

http://lucastenorio.blogspot.com/2006/01/potica-do-ps-modernismo-linda-hutcheon.html

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