quinta-feira, 26 de junho de 2008

Sobre Memória

Memória,
Esquecimento,
Silencio

Michael Pollak
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Em sua análise da memória coletiva, Maurice Halbwachs enfatiza a força dos diferentes
pontos de referência que estruturam nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos. 1 Entre eles incluem-se evidentemente os monumentos, esses lugares da
memória analisados por Pierre Nora, 2 o patrimônio arquitetônico e seu estilo, que nos
acompanham por toda a nossa vida, as paisagens, as datas e personagens históricas de cuja
importância somos incessantemente relembrados, as tradições e costumes, certas regras de
interação, o folclore e a música, e, por que não, as tradições culinárias. Na tradição metodológica
durkheimiana, que consiste em tratar fatos sociais como coisas, torna-se possível tomar esses
diferentes pontos de referência como indicadores empíricos da memória coletiva de um
determinado grupo, uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações, uma
memória também que, ao definir o que é comum a um grupo e o que, o diferencia dos outros,
fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteiras sócio-culturais.
Na abordagem durkheimiana, a ênfase é dada à força quase institucional. dessa memória
coletiva, à duração, à continuidade e à estabilidade. Assim também Halbwachs, longe de ver
nessa memória coletiva uma imposição, uma forma específica de dominação ou violência
simbólica, 3 acentua as funções positivas desempenhadas pela memória comum, a saber, de
reforçar a coesão social, não pela coerção, mas pela adesão afetiva ao grupo, donde o termo que
utiliza, de "comunidade afetiva". Na tradição européia do século XIX, em Halbwachs, inclusive,
a nação é a forma mais acabada de um grupo, e a memória nacional, a forma mais completa de
uma memória coletiva.
Em vários momentos, Maurice Halbwachs insinua não apenas a seletividade de toda memória,
mas também um processo de "negociação" para conciliar memória coletiva e memórias
individuais: "Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam
seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias

Esta tradução é de Dora Rocha Flaksman.
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Michael Pollak é pesquisador do Centre National de Recherches Scientifiques - CNRS, ligado ao Institut d'Histoire du Temps Present e ao Groupe de Sociologie Politique et Morale. Estuda as relações entre política e ciências sociais e desenvolve atualmente uma pesquisa sobre os sobreviventes dos campos de concentração e sobre a Aids.

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